[Review] The Liar Princess and the Blind Prince

Com o arrependimento de ter cometido um grande erro, uma loba acaba se apaixonando por um príncipe, cegado por ela mesma. Será que esse jogo, mais parecido com um conto de fadas, vale a pena?


Ficha Técnica

Título: The Liar Princess and the Blind Prince

Plataforma: Nintendo Switch

Tamanho: 2,5 gb

Desenvolvedora: Nippon Ichi Software

Publicadora: Nippon Ichi Software

Jogadores: 1

Em português: Não (interface em inglês)

Gênero: Plataforma, Aventura, Puzzle, Storytelling

Save na Nuvem: Sim


Aahh, os contos de fada.. Quem é que nunca se maravilhou com os clássicos contos de fada e fábulas, muitos atribuídos a Esopo? Seus animais falantes, com consciência que refletem vários aspectos emocionais e psicológicos do ser humano, é incrível. A memorável frase “Por que turvas a água que eu bebo?” me ajudou no aprendizado de algumas regras gramaticais, além de outros contos ensinarem sobre moral, como A Raposa e as Uvas, O Coelho e a Tartaruga, etc.

A NIS America presenteou a todos esse ano com um belíssimo conto de fadas interativo, que não perde em nada comparado aos contos e fábulas de Esopo. Possui animais falantes, criaturas perigosas, reinos medievais, magia, e o principal, uma lição de moral que com certeza ficará na minha memória para sempre: vale a pena manter uma mentira para o benefício de outra pessoa?

História

A história é contada como se alguém estivesse lendo-a para você. A imagem fica estática, trocando quando um momento importante deve ser mostrado, enquanto as letras lentamente vão surgindo na tela. A voz é agradável, com seu tom variando conforme os acontecimentos e falas de personagens.

Em um mundo mágico, em que muitas criaturas se alimentam de humanos e são capazes de falar, existe um reino que é cercado por uma floresta densa e tenebrosa, repleta de criaturas malignas. Entretanto, um jovem príncipe, cheio de coragem, entra frequentemente na floresta com um único objetivo: ouvir o canto de uma bela e doce voz, que vinha do alto de um morro.

Mas ele não sabia que esse canto tão belo pertencia a uma criatura temida e monstruosa: uma enorme loba, com grandes presas e garras.

Ao término de cada canção, o príncipe batia palmas, e por sua vez a loba começa a gostar da atenção e dos aplausos, sempre esperando-os dia após dia. Até que um dia não aconteceu.

O príncipe, curioso para saber de quem vinha a voz tão bela, começou a subir o morro. A loba, ao não ouvir os aplausos, foi verificar se ele ainda estava lá. E nesse momento acontece algo que gerou um arrependimento tão grande para a loba, que moldou completamente sua vida. Ao ver que o príncipe havia subido o morro, a loba, sabendo que era uma criatura monstruosa e com medo de revelar sua aparência ao príncipe, por reflexo tentou tampar os olhos do príncipe com sua mão, mas acabou ferindo-o com suas enormes garras, cegando-o completamente…

Nesse momento o príncipe começou a cair do morro e a loba, para tentar salvá-lo, agarra sua mão, sem machucá-lo dessa vez. Assim, o príncipe sentiu a presença maligna da loba segurando sua mão e teve um verdadeiro pavor, forçando para soltar e cair. Felizmente ele caiu vivo, um guarda do reino foi ajudá-lo e, ao perceber a feroz loba, atirou algumas flechas para afastá-la.

A vida do príncipe mudou completamente. Ao ver que seu filho estava cego, o rei o rejeitou, tirou suas roupas reais e o vestiu com trapos, deixando-o preso e humilhado dentro de uma torre.

A loba realmente gostava que o príncipe aplaudia sua música e sempre esperava sua presença. Mas, por tê-lo machucado de uma forma severa, ficou amargamente arrependida e depois de alguns dias foi tentar vê-lo na torre. Conversou um pouco com ele e teve uma ideia: levá-lo a bruxa da floresta para ela restaurar sua visão.

Então ela correu durante um dia inteiro e encontrou a bruxa, que deu a ela uma forma humana de princesa, ao preço de algo de extrema importância.

Nesse momento, a loba em forma de uma bela princesa, conversou com o príncipe e disse que poderia ajudá-lo, mas eles teriam que entrar na terrível floresta. Eles conseguem sair e, ao chegar na floresta, o jogo começa.

Jogabilidade

O propósito do jogo é contar uma história. Então todos os elementos vão se somar para isso acontecer e, como veremos posteriormente, isso acontece perfeitamente.

O jogo é basicamente um walking simulator, em que você interage com coisas específicas no cenário, resolve puzzles e anda para frente. As criaturas que aparecem? Irrelevantes para a forma de loba, pois ela é mortal e não pode ser atacada.

A jogabilidade é essencialmente essa, resolução de puzzles que muitas vezes são fáceis, com a exceção de um ou dois que são desnecessariamente difíceis. Por serem tão difíceis, você não é obrigado a passar e terá que passar somente se quiser os coletáveis do jogo, o que mesmo assim não torna o jogo tão mais difícil.

Os coletáveis aprofundam a experiência do jogo, liberando imagens que explicam algumas escolhas artísticas e outros detalhes no design do jogo. Outros, mais difíceis de serem coletados, vão contando um pouco da história da bruxa, que culmina em um ápice no fim da história e explica melhor alguns pontos.

No jogo você controla a princesa e pode voltar a forma de loba quando bem entender, sendo a melhor forma de se livrar das criaturas. Entretanto, você sempre tem que estar na forma humana pois o príncipe, por ser cego, é totalmente dependente e deve ser guiado ao segurar a mão da princesa, e há um detalhe fantástico: ao segurarem as mãos, os dois protagonistas sorriem, mostrando o quanto que se sentem bem ao lado do outro.

Não espere desafios difíceis, o jogo quer somente contar sua história e pode facilitar o caminho para isso, se o jogador preferir.

Imagens

Com uma imagem extremamente bela e agradável, The Liar Princess and the Blind Prince surpreende com seu clima denso ao retratar a floresta fechada e escura.

Os detalhes da vegetação, as flores, luzes, criaturas e elementos ao longe contribuem para isso. Até a paleta de cores que abusa de marrons e cinzas, colabora com o sentimento de solidão e isolamento.

Névoas se formam e têm momentos em que não há luz, de tal forma que os personagens dependem somente de uma lanterna improvisada. Isso preenche a tela e retrata perfeitamente a floresta de trevas.

Um detalhe que vale ressaltar é o efeito de paralaxe usado com maestria no jogo. Observando a imagem abaixo, até mesmo as outras nesse post, dá para perceber que existem vários planos, várias camadas. Tem um bem próximo, até desfocado, e mais uns dois ou três planos, até chegar no mais próximo de onde estão os personagens. E depois muitos outros planos, somando ainda mais a sensação de isolamento, pois isso prova o quanto a floresta é grande. Por fim, as bordas escurecidas fecham com chave de ouro.

O jogo ocorre em uma floresta de muitas trevas, densa, tenebrosa, e mostra perfeitamente isso através dos elementos gráficos.

Trilha Sonora

Você sentiu, pelas imagens e pela história, que está em um lugar isolado e bem fechado, grande e longe. Então, como se o que foi mencionado anterior não bastasse, a trilha sonora te persegue nesse sentido.

As músicas têm uma base em baladas simples, que utiliza muito de instrumentos de percussão e sopro, como atabaques e outras coisas mais relacionadas a floresta, com destaque nos belíssimos Hang Drum e Marimba (pesquise e se emocione com as versões das músicas de Zelda com esses instrumentos). Há momentos em que a trilha embala um coral de fundo, com piano e até órgão. Tudo soma perfeitamente a experiência, seja na floresta ou outros cenários do jogo.

Um detalhe que achei bem interessante é que deixaram o volume dos sons que os personagens emitem bem baixo. No começo me irritei um pouco, pois algo tão básico como volume de personagens deve ser fácil de configurar, mas percebi depois que é baixo pois é um som a distância. Os passos, as quedas, os sons de impactos refletem bem a distância que os personagens estão. O som dos golpes da loba, por sua vez, está um pouco mais alto, o que dá a entender que são bem fortes e agressivos, refletindo que a forma de loba é realmente perigosa.

Lição de moral

Tirando um pouco do foco do jogo, quero falar sobre sua premissa, que é mostrar os malefícios que uma mentira pode trazer aos relacionamentos.

É facilmente perceptível que essa admiração ao príncipe que a princesa tem e sua confusão de sentimentos somado ao arrependimento, transforma-se em amor. Por não saber como reagir, escondendo seu verdadeiro ser, mentindo e o príncipe se tornando dependente dela, faz com que a maior dependência na história parta dela para ele! A loba se sujeitou a pagar um preço altíssimo para se transformar em humana, faz de tudo para manter a boa relação com o príncipe. Sobre o príncipe? Ele é o verdadeiro herói do jogo.

Eu consigo me conectar muito bem à história do jogo pois em minha vida houve um momento em que um arrependimento se transformou em paixão. Superei, sim, e dá para entender muito bem os motivos para a loba fazer tudo que fez. Ela, ao mesmo tempo em que amava o príncipe, possuía nele seu maior temor. E por estar nele também seu maior medo, ela se auto-sabotava e se colocava em situações de risco. Resumindo, The Liar Princess and the Blind Princess é uma história sobre o problema real da Ansiedade!

Considerações finais

Posso dizer que esse belíssimo jogo é recomendado para quem gostou de Old Man’s Journey, Monument Valley e Inside, por ter seu foco na narrativa e com mecânicas simples de quebra-cabeças

O jogo se trata de uma experiência emocional interativa. Não possui elemento nenhum em sua jogabilidade que seja atraente. Tanto que em muitos momentos eu queria somente terminar logo a fase para dar continuidade a história.

Entretanto, as imagens e a trilha sonora tornam a experiência de jogabilidade mil vezes mais suportáveis, que se somam perfeitamente à história envolvente e imersiva. Por falar nela, a história se fecha de uma forma perfeita, superando as expectativas. Falar mais do que isso seriam spoilers.

E aí, ficou com vontade de jogar agora? Já jogou? Se você já jogou, acompanhe abaixo a área com spoilers. Se ficou com vontade de jogar, fuja dos spoilers pois a experiência de cada momento é importantíssima. E deixe sua opinião nos comentários!!


Trailer do jogo


Esse review foi feito utilizando uma cópia enviada pelos produtores.

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Kiefer Kawakami

Sobre mim: Amante dos games, acredito que eles podem mudar a vida das pessoas e fazê-las mais felizes, bem com aconteceu comigo. Possuo um amor incondicional pela Nintendo desde Donkey Kong Country e Super Metroid. Sou estudante de Licenciatura em Física e pretendo utilizar os jogos de forma lúdica, exemplificando histórias e conceitos. Além disso quero divulgá-los, para que as pessoas vejam a maravilha que são e podem ser.